Causos & Casos



POROROCA

Januária
Traz o açaí
E a farinha de tapioca
Que vou pra beira do rio espiar a Pororoca.

Vige Santa, num vi tanta brabeza
Num rio que acorda enfezado
Levando tudo nas águas
Deixando tudo espaiado.

Gosto de ficar de bubuia
De zóio grelado naquela arrumação
De ver gente pendurada
Nas costa do rio
Como se água tivesse cabelo
A bicha vem gritando de longe, penso que é pesadelo
Parecendo assombração.

Mas gosto de ver seu moço
A Pororoca
Vindo feroz assim
Devorando tudo nas margens
Do meu belo Rio Capim.

Ela é bunita
Sim sinhô
Mas dá medo
Não me atrevo
A colocar a minha canoa
Pois a bicha é igual
Boiuna,
E pode me jogar de pupa a proa...




MADONA EM SEU LABIRINTO




Nazareno Santos/ Jornalista/Poeta
Às vezes rebusco os labirintos de minhas contradições, tentando entender  a antítese que  às vezes faz do nosso coração um enigma naquilo que muitos pela sua complexidade chamam arte de amar. Penso que viver preso a essa necessidade de sentir a presença do outro de uma maneira mais profunda, uma coisa de pele, de alma, de essência pura... Talvez seja por isso que poetizo a vida de maneira inconsciente, ela vai brotando feito uma semente germinando no solo do acaso.

Em cada gesto vou me tornando um jardineiro fiel da beleza escondida entre a angustia e a alegria, entre o pecado e o desejo de enlevar a alma aos píncaros da verdade, mas essa verdade invisível surge em gotas frágeis caindo sobre minhas esperanças tardias... Penso que não preciso viver em sua intensidade toda razão de ser, todo desejo reprimido. Já me perguntaram se o poeta poderia definir a felicidade. Claro que não a felicidade deve existir de forma fragmentada para que assim possamos viver nessa eterna busca de um todo que tem que se formar do nada que solidifica nossa existência. 
Ao mesmo tempo em que exorcizo os fantasmas dos meus demônios ocultos que brigam com meus anjos decaídos.   Como um demiurgo bebe na fonte da curiosidade para embriagar-me com o néctar da sabedoria a ser extraída de uma forma dolorida como quem mergulha numa água sombria em buscas  do ouro quase sempre inacessível.  Vou tecendo minha existência feita a Aranha construindo sua teia
Às vezes piso num solo frágil que me faz voar como um meteoro perdido no espaço cósmico da dor, essa mestra que molda nossas atitudes, sim sofrer é preciso para que o verdadeiro amor  brote de sua sangria e nos liberte de nossas inquietações.  Preciso ser Sansa gregor em sua metamorfose, preciso mergulhar no caldeirão do meu processo, mas abomino o inseto que insiste em aprisionar minha razão de ser.
Hermeticamente vivo com a sensação de que serei eterno, eterno nos segundos em que construo meus sonhos frágeis possíveis,  minha vã filosofia se forma da matéria prima da busca incessante... Então viver pra mim é uma busca, minhas angustias, minhas alegrias meus êxtases formam minha redoma de vidro aonde me fecho num casulo para que a dor do inesperado possa me fortalecer quando for contaminado pelo vírus fatal da paixão... Falo não apenas da paixão de corpos que se auto flagelam nos prazeres insanos, falo da paixão que enlouquece que entorpece que silencia e nos leva a apoteose do amor
Nâo!  Não precisarei beber cicuta muito menos absinto, sorverei a taça dos meus delírios como quem busca a outra margem de um rio invisível, mas essencial em minhas divagações... Só preciso traçar meu caminho, escrever o próprio  roteiro de uma história sem fim, que me devolve ao começo do nada aonde coloquei meus pés um dia, aonde minhas mãos teceram sonhos e ilusões,  sim precisarei chorar para que meu riso flua  não o riso sádico da hiena, nem o riso sombrio  de Monalisa.   
E quando bater a saudade meu amor, olharei num espelho embaçado  direi que não sou eu, que sou apenas um enigma indecifrável  tentando complementar  a imagem que vejo como uma farsa do destino conspirando contra minhas incoerências,   mesmo assim juro que esculpirei no tronco de um cedro milenar teu rosto angelical,  serás minha madona incrustada a minha espera... 
Nos amaremos loucamente, serás minha namorada louca e dançaremos sob a luz do luar tocando harpas para acordar os anjos inebriados,  e tu haverá de me devorar numa antropofagia poética porque você não mais será minha madona de cedro, mas sim minha esfinge tocando meus cabelos, acariciando minha face e por fim me devorarás feito uma labareda de fogo devastando paisagens.
E quando o inverno chegar nossa juventude restará apenas em nossas pálidas lembranças, mas mesmo assim dançaremos uma valsa vienense sobre as nuvens, caminharemos de mãos dadas sobre as chuvas, nos amaremos loucamente e serás minha princesa num castelo imaginário, e não mais haverá saudades porque  nossos corações estarão entrelaçados e  seremos pontes que entre idas e vindas nos farão  felizes sem medo e para sempre colheremos flores nos jardins dos nossos sentimentos... 



SAPO CURÉ


Para os adultos que tenha essência de criança

          Sapo curé
          E um sapo diferente dos outros animais
          Enquanto os outros pulam pra frente
          Ele pula pra trás

          Mora na lagoa
          Mas não lava o pé
          Acha errado andar pulando
          Enquanto os outros sapos coaxam ele anda assoviando

           Sapo Curé
           È ousado
           Tem firmeza de opinião
           Se pudessse voaria/
           Não pisaria no chão

           Ele tem uma namorada
           Chamada Rabeca
           Que já brigou
           Com uma rã ciumenta chamada Perereca

           Sapo Curé é um bom companheiro
           Um amigo de fé
           Que não anda lento
            Mas sempre ligeiro

           Se apaixonou
           Por uma râ
           Ranzinza
           Que ele achava bonita
           Por ser da cor de cinza

           Sapo Curé
           É vaidoso anda sempre arrumado
           De fraque e Cartola
           Pra inveja não dá bola
           Vaidoso
           Também anda sempre perfumado

           Mais um dia Sapo Curé ficou triste
           Ao ser convocado pra uma reunião
           A orquestra dos sapos
           Colocou em voto
           Sua expulsão

           O sapo Glutão argumentou;
          -O Sapo Curé é muito metido
        Só quer ser não se mistura mais com a gente
        Não coacha mais na orquestra
        Não pula pra frente
        Orgulhoso, arrogante.
        Quer ser diferente...
        
         Nesse instante
         A  Rã Ranzinza
         Cor de Cinza
         Falou:
         Por questão de ordem
         Do curé quero ser advogada
         Na podemos expulsá-lo
         Da Lagoa
         Por ele pensar diferente
         E não estou enganada em minha opção
         Não é justo fazermos isso
         Esse sapinho tão fofinho (virando os olhos) é nosso irmão
        
         E depois tudo isso não passa de
         Inveja e despeito desse tal do Glutão
         Que até parece que não tem coração...

         Glutão dando dois saltos na frente de Rã zinza
         A interpela com vigor nas palavras.

-        Alto lá, Rã zinza
          Cor de Cinza
          Não podemos viver com um sapo
          Que não coacha
          Mas assobia
          Que enquanto nos pulamos pra frente
          Ele pula pra trás
          E nem sequer da lagoa
          Ele quer saber mais

          Quando Curé saiu da orquestra
          Ela ficou desafinada
          Com uma voz a menos
          Não cantamos mais nada
          Agora ele só quer assobiar
          Onde já se viu
          Uma orquestra assim alguém querer escutar?

          A assembléia já estava formada
          Com a reunião animada
          O Sapo Girino coachava
        Ata ou desata?
        Quem vai assinar a ata
         Da expulsão???
   
        Curé pulando pra trás
         Levantou o Pé
         Pra falar..
    
         Meus amigos sapos , amigas sapas, Pererecas e Gias
         Não sou melhor que ninguém
         Só não vivo de utopia
         Mas também
         Não posso ser limitado
        
         Não posso viver acorrentado
         Ao medo
         Sem cultura nem opinião
         Não guardo segredo
         Que gosto de sonhar
         Que posso ir muito além da lagoa
         Onde vocês querem se acomodar
         Posso ser feliz do meu jeito
         Pois trago no peito
         A beleza e inocência da poesia
         Ao invés de coaxar
         Posso assobiar noite e dia

         Não posso ser desprezado
         Por pular para trás
         E não pra frente
         Se não é do meu feitio
         Nem da minha natureza
         De uma coisa tenham certeza
         Assim eu sou
         E sempre serei
         E depois em terra de sapo
         Quero ser rei

         Não ligo pra intriga de vocês
         E abomino fofoca
         Não quero ser gente
         Quero ser sapo
         Mas do meu jeito
         Um sapo simpático
         Um grande sujeito (Nesse instante todos aplaudem o magnífico discurso de Curé)
          (Curé se curva em reverência dizendo muito obrigado)

         Por sua bela retórica
         Cure é aclamado
         E ao invés de ser expulso
         Todos os sapos querem por ele ser liderado...

         Curé um sapo politicamente correto, leva a assembléia uma nova e polêmica discussão  sobre o perigo que corre a lagoa, que poderá ser destruída pela construção de uma hidrelétrica...
         Curé- Já que somos organizados quando cantamos, precisam aos provar que somos também sapos conscientes, brigões no bom sentido para que possamos garantir nossos direitos... Nisso Sapo Lino(que adora dormir e comer)intervem...
             Sapo Lino-  Tô fora Curé... Esse  papo de ideologia, de discussão isso ai não dá em nada, reuniões(se espreguiçando) isso dá uma canseira mental.... depois eles não estão nem ai pra nossas opiniões...vão passar o trator sobre  nossa lagoa, sugiro que cada um já procure logo uma nova lagoa porque essa aqui já era...
         Curé(revoltado) pergunta. Vocês todos concordam com o Sapo Lino?Acham que devemos viver em estado de alienação, aceitando tudo goela abaixo, sem cultura nem opinião, sem nada dizer, sem nada fazer?
         A rã ranzinza da cor de cinza foi umas das poucas que levantou as mãos(e os pés) discordando do Sapo Lino...
        -Rãzinza- Olha, eu como sou uma jovem(por sinal muito bonita  e desejada aqui na lagoa),discordo do Sapo Lino, temos que participar, debater nossos problemas...Essa tal Hidrelétrica até pode ser construída,mas a tes precisamos saber detalhes, sobre como vai ficar bnossas vidas, afinal estamos aqui há muitos anos, temos nossas famílias e de repente isso aqui vira um nada o que será de nós???
        O sapo companheiro(que até então estava calado na reunião) se manifesta
       Olha concordo que a natureza seja preservada, mas e nos da honrada família dos batráquios estamos tendo nossos direitos? mas sou a favor da hidrelétrica porque assim teremos escolas de qualidade, saúde, geração de emprego e renda...
      Sapo Lino(bocejando) to fora sapo companheiro,que papo é esse de trabalhar, prefiro ficar na moita pegando tudo na manha esse negocio de trabalhar é complicado.
       Tão vendo???(retruca o Sapo Companheiro), por isso que nossa lagoa não vai pra frente porque tem sapos que pensam como o sapo Lino. Rãzinza  complementa
-       É mesmo e sugiro que a partir de hoje todos se envolvam nessa causa
Vamos fazer um abaixo assinado para mandar ao presidente de nossa lagoa, pedindo informações  sobre a hidrelétrica...
      Curé- Rã ranzinza cor de cinza, façamos o abaixo assinado, mas já convidei o um representante da empresa que vai construir a hidrelétrica, eles vão mandar o Engenheiro Sapo Genuíno que vai nos explicar tudo sobre isso, para depois tirarmos conclusão...
       
                                    REUNIÃO SOBRE HIDRELÉTRICA

         Domingo pela manhã,  com a presença de todos os sapos e sapas da lagoa, além dos girinos, todos se postarem de frente para o Sapo genuíno que de fraque e cartola(de uma elegância elogiável),  portando uma pasta preta tirou um Pendrive, passando a exibir num data show os detalhes sobre o projeto..
Sapo genuíno à medida que a imagem ia sendo passada ia explicando... Aqui por exemplo vamos ter uma  plataforma elevada,  de tecnologia de ponta, além do  mais iremos construir aqui um local, uma especial de corredor onde nós sapos e os peixes ficaremos protegidos e livres de perigo...

Ranzinza pedindo explicações
O Sr engenheiro está nos afirmando isso, mas qual a garantia de que não iremos ser engolidas por uma turbina?
O engenheiro Sapo Genuíno especifica... É que um projeto desses tem que ter uma estratégia que reduza os impactytos ambientais... E em meio a questionamentos, dúvidas, os sapos saíram da audiência apreensivos achando  que o engenheiro enrolou muito com informações que eles não entendem direito...

Dispersa a saparada, Ranzinza volta a filosofar sobre a importância da
participação...
Viram???   O pobre do Curé não estava sendo compreendido, mas com essa nossa reunião ficou claro que a união realmente faz a força, que pensar diferente nem sempre é ser diferente...
Sapo Lino (o sapo politicamente  incorreto) discorda- mas rã zinza,  eles não estão nem ai pra nós, lá no planalto central  eles nem sabem que existe aqui uma lagoa no meio do caminho de uma hidrelétrica... Depois  quando tem eleição o que vale é o dinheiro e não a opinião de um bando de sapos e sapas abestados feito nós...

Sapo Companheiro-  Sei que tem razão, nossos sapos jovens detestam política, em sala de aula não falam disso, mas até quando vamos ter que aceitar isso? Podemos mudar o destino de nossa lagoa, livrando-a da hidrelétrica, trazendo benefícios... Mas somente isso será possível se tivermos consciência ecológica

Consciência companheiro o que é isso? Votamos no nosso deputado sapo Valério e o que aconteceu?. Foi pego com a cueca cheia de dinheiro e nada ocorreu com ele... Esse dinheiro fez falta para a saúde, educação, social...O saparia em sua maioria(até rimou) continua alienada

Rãzinha... Sei, mas se ficarmos calados,  omissos estamos contribuindo para que surjam mais pessoas assim, estamos fazendo também um projeto pedindo para todo sapo enrolado,desonesto quê tenha sujeira,e e sapo não pode ser sujo porque mora na lagoa, não possa ser candidato a nada, nem a presidente de lagoa...
Sapo Lino-  Sei muito bonito tudo isso, mas vocês acham que      eles vão votar Contra eles mesmos???.  O sapo Rãmalho, por exemplo, que pinta e borda e nunca perde uma eleição é um exemplo... Ele enganou todo o Ranário dizendo que ia projetar uma área de proteção em nossa lagoa e sumiu com verba...

Rã zinza-   Sim, mas isso acontece porque tem sapo sem-vergonha que vende seu voto. Troca por comida, mas se todos olhassem o caráter, a história de cada candidato isso não ocorreria... Ainda dizem que somos preguiçosos quando dizem que o “Sapo não lava o pé, não lava o pé porque não quer, mora na beira da lagoa,  mas não lava o pé, não lava o pe´”.





      O OURO QUE VIROU ASSOMBRAÇÃO

Nazareno Santos/ Jornalista/Poeta
Cheguemos a Itaituba me recordo como se fosse ontem, era uma tarde de Dezembro, da qual não me recordo com detalhes à precisão da data, só sei que era próximo ao natal, e a cidade estava em rebuliço com movimento no comércio.
 O que me trouxe a Itaituba foi o sonho de ficar rico igual meu compadre Ziferino, que não tinha eira nem beira lá no Maranhão e agora é homem de posses.Quem sabe eu também não dou sorte e acerto numas graminhas?
         Quando descemos do ônibus Transbrasiliana, eu minha veia que se chama Mariana meus três filhin, Luzia, foi pru mode uma promessa pra Santa Luzia, mas num é a do tide não, Santa Luzia mermo, a promessa foi pra bichinha num ficar cega de nascença, pois antes de nascer deu um pinima na mãe dela, mas graças ao meu bom Deus Luzia hoje enxerga que é uma beleza, os outros dois José de Ribamar foi por causa de Sarney, o menorzinho e tem cada botuca de zóio que só vendo.Mas voltando por onde comecemos, atravessei de Miritituba numa balsa, mi lembro bem, era uma tarde de sol de rachar igual aquela peste da seca do sertão, mas aqui tinha o rio pra nos banhar, quando pus os zóio naquele mundão dágua, fiquei inté meio abestalhado, oiando por sobre a balsa antes de ela chegar em Itaituba.
           Cheguemos tudo sujo, cara cheia de poeira, oia seu menino o sinhõ num quera saber o inferno que é viajar pela Transamazônica, que alguns dizem de tanto sofrer é transamargura. Descendo da balsa parei perto da feira pra conferir os corim de rato que trazia em minha boróca véia trazia só o essencial, pobre só tem mesmo o essencial que é a miséria e a esperança de um dia ficar com os burros na sombra.
          Conferi nota por nota e pro meus miolos, mal carculando o dinheiro dava apara uma semana de pensão barata, e na base do esforço um PF melhorado. Estava matutando sobre isso, com o dinheiro na mão e os zóio no rio, que rio bunito, o bicho parece aquele rio da bíblia, mas fui trazido pra vida real por um tapa no pescoço dado pela muié enfezada.
Mariana-Deixa de leseira home, tu nunca visse um rio não é? Vamo se avexe pegue os trecos dos meninos e vamo logo procurá um lugar pra nos sossegar a caveira e encher o bucho.A essas alturas já estava ficando de noite.Mas lembrei que tinha um endereço no meu bolso, de um cumpadre meu lá do Piauí, que tinha vindo pra Itaituba também com a cabeça doida feito eu, pra ficar rico nos garimpos, mas o cabra é de sorte mermo ouvi falá que ele acertou numa grota e ta bem inté paresque que o sujeito nasceu de cu pra lua, se eu encontrar ele, ai quem sabe ele me arruma um trabaío ou um ajuda enquanto não começa a trabaiá...
           Fumo tudo andando, com as traia véia nas costa, nos num sabia onde ficava a cidade arta, mas fumo preguntando ali, preguntando acolá, o cumpadri morava longe, no papel velho já todo amassado dizia que ele morava na 26ª rua nº 2240. Por sorte encontremos a casa dele, fomos bem recebidos, mas o cumpadre pelo jeito estava mais lascado do que eu, a casa era simples de madeira, uns sofás veio já gasto, uma televisão preta e branca, uma redes atada na sala, mas pelo menos tinha comida, e já fui me animando lá pelas cozinha.
           O cumpadre me mandou me abancar e preguntou que diacho eu vinha fazer aqui, não pensei duas vezes e disse a ele que queria ser garimpeiro. Ele me deu uma expricação.
          --Cumpadre Ziferino-Oia meu cumpadre a vida no garimpo é uma loteria, inclusive estou aqui me recuperando de mais uma “Marlene”.Fiquei incabulado que diabos essa Marlene fez com ele.Mas entendendo minha duvida explicô-Não é nada disso, Marlene é como nos chamamos à malária lá no garimpo, estou aqui uma semana já tomei a quinina, devo baixar pra lá semana que vêm, e como o patrão lá está precisando de mais garimpeiro, o senhor ainda e brabo mas depois amansa.Fiquei feliz da vida, pelo menos tinha livrado meus corim de ratos da pensão e dos PF que ainda tinha que arranjar pra mué e pros mininos.O cumpadre foi muito bondoso ainda oferecendo apoio em sua casa para minha famia.
         Zifirino- O senhor deixa as crianças e sua muié aqui com a minha em casa, pelo menos é uma boa companhia e nos vamos batalhar, ai quando tiver dando ouro nos manda ajuda pra cá, mas não se preocupe que enquanto o senhor não se arranja nos num morre de fome não.Aquilo foi um maná que caiu do céu.Já estava arrumando minhas roupas, que não eram muitas mermo,só uns trapos veio, nos ia viajar lá pro garimpo,com nome esquisito,um tar de Cuiu-Cuiu. Partimos numa segunda feira de manhã cedo, na agencia do Pai Velho pesaram minha boroca (que de tão escassa num dava dois kilos) eu também não estava pesando muito, pois na viagem pra Itaituba passei baixo vinha chamando cachorro de meu tio e mendigo de vossa excelência,. Moço mas o importante é que Deus já tinha arranjado minha vida.

          Cheguemos no garimpo no mermo dia, demorô porque o piloto fez umas tar de perna, mas cheguemos já quase na boca da noite, meu cumpadi me agasaiou lá na currutela, enquanto esperaria o dia amanhecer pra ir pro baixão. Fique num quartinho de um brega, mas foi ruim a dormida seu moço quando não era barulho de tiro,era uma música em volume alto, e já pela madrugadinha quando pensei que ia poder tirar o sono dos justos,num consegui pegar no sono não,por causa que as muié ficava gemendo a noite toda  inté paresque que as miserave tava tudo era duente com tanta gemedeira,uma tremenda falta de vergonha,onde já se viu uma gritaria dessas de madrugada.No dia seguinte, terça feira pela manhã, o cumpadi cedin veio me panhá, de lá da currutela foi três horas de varação, quando cheguemos no barranco foi uma festa.
          Como eu era tido ainda como pião brabo, fiquei ajudando em outros serviços, mas aos poucos fui observando o trabalho fui aprendendo, Durante um ano foi de dureza, num arranjei muita coisa não, mas um dia encrespei de tirar uma terra cega, que o antigo patrão já tinha abandonado, e num é que após batalhar por vários meses consegui tirar um bom ourim. Bamburrei, e a primeira coisa que fiz foi me mandar pra corrutela soube que tinha chegado umas muié bunita, tudo galega do zóio azul, ai pensei que dos três quilos de ouro, se tirasse quinhentas gramas num iria fazer farta não, adispois Mariana iria me entender, eu ali naquele mundão, sem saber o que era muié há tanto tempo.Precavido pra não ser roubado, pois tem muito zóio de bacurau por aquelas paragens de garimpo.Entrei no salão da boate “Danúbio Azul” nessa noite estava tendo um show do meu conterrâneo Adelino Nascimento. O brega era bem enfeitado, as damas da noite circulavam a espera dos freguês eu fiquei de longe espiando, escolhendo com quem iria ficar, já tinha inté separado as quinhentas gramas num vidrim, o restante guardei em segredo. Até que depois de ficar de bubuia por algumas horas, enxerguei de longe uma loira, que era muita areia pro meu caminhão.Mas aí pensei, o que importava se ela for um avião, eu tenho meu ouro posso comprá, aquilo dava de mil na pobre de minha Mariana, mas era só uma aventura de cabra besta, só tinha que tê cuidado praquela cabrocha num me passar gonorréia, pois a primeira recomendação de minha veia foi essa, ter cuidado com as doenças do mundo Criei coragem e fui até o brega, a muié galega paresque que adivinhava que eu tinha ouro guardado no vidrim, se aproximou de mim toda sorridente,com um olhar meio sem-vergonha me chamou e eu fui.
             Olha, se você quiser posso lhe dar muito prazer. Não perdi tempo e perguntei -E quanto custa?.  Ela me respondeu depende, é só pra entrar ou pra sair?Não entendi direito depois ela me explicou que entrar e sair eram só dar uma rapidinha tipo de ganso, e entrar e ficar dava direito a amanhecer o dia, ai aumentava o preço do selviço. Eu falei que era pra entrar e entrar mesmo. O preço quase me provoca um problema no coração.Ela me cobrou 100 gramas. Na bucha eu falei, dou cinqüenta . Ela aceitou daí eu fui, estava meio nervoso com medo de na hora agá, faiá porque fazia tempo que estava no seco, mas ela me acalmou dizendo que era uma profissional de primeira linha. Entramos num quarto véio que só tinha uma cama, uma penteadeira, e embaixo da cama uma bacia e um balde com água que era pro asseio depois do negócio consumado. Naquele tempo o motor apagava as três da manhã, no quarto só tinha um toco de vela, ela apagou e nos deitamos, caricias pra lá, caricias pra cá, de repente percebi algo estranho.A loira dos meus sonhos olhou pra mim e disse
Está surpreso querido, eu sou uma traveca!..Que diabo era traveca?,Eu matuto do mato num era acostumado com essas coisas, o meu negocio era muié, irritado por me sentir ultrajado em minha honra de macho que nunca negou fogo pra Mariana, essa sim muié de verdade, apanhei uma faca que trazia dentro da bota e num contei conversa, dei três facadas naquele bicho estranho que ficou estrebuchando no chão, com o sangue esguichando em minha camisa branca que havia comprado para estrear naquela noite. Foi um alarido com os gritos da muié ou sei lá que diabo era quilo, fui pego, fiquei preso. Pra pudê sair da cadeia tinha que subornar o delegado calça curta e seus bate pau, mas o resto do ouro eu tinha enterrado numa lata de leite ninho grande próximo do meu  barraco. O delegado me pediu um quilo de ouro e ai esquecia tudo, não fazia o flagrante (que ele nem sabia que diabo era aquilo, pois era analfabeto de pai e mãe). Pensei comigo...ainda fico com um kilo e meio de ouro,dá pra mim ir atrás da famia, afinal nun sei que doideira deu em minha cabeça,que desde que vim pro garimpo esqueci Mariana e os filhin, não tinha mais notícias, o cumpadre que me trouxe se enrabichou com uma dona aqui no garimpo, e eu ali naquela situação,preso porque tinha matado um home- muié,mas também o moço  ai que está acompanhando minha história pode até dizer que sou besta,mas óia o sinhor também se enganaria,o bicho era bunito,parecia um mulherão,o problema é que as coisas dele eram esquisita,diferente,foi por isso que me enfezei.Quando falei pru delegado que tinha enterrado meu ouru o delegado disse que eu tinha ficado doido, num acreditou muito na minha história mesmo assim combinou que nos iríamos desenterrar o ouro no dia seguinte uma sexta feira que por coincidência era Treze.Saímos da corrutela em três (o delegado pilantra que queria ficar com a maior parte do ouro) era eu, o delegado e um guaxeba dele, uns cabras baixinhos, cabeçudos, que se achava uma autoridade talvez confiando no 38, que carregava sempre na cintura..Cheguemos, no barraco depois de uma varação de três horas.Antes de enterrar ouro havia colocado vários montes de pedras, pondo pedras diferentes no local onde tinha deixado ela enterrada, tudo isso para facilitar quando precisasse pegar de volta.Chegando lá a uns dez metros vi as pedras, ai falei pro delegado que tava lá, mas senti uma coisa ruim pelo corpo, um esfriadozin, comecei a ficar com medo, a me arrupiar. Ai falei-Seu delegado pode começar a desenterrar que o ouro está ali.O bate pau, de zóio grande pegou um pedaço de pau e começou a remover a areia, a lata estava enterrada a poucos metros do solo.Quando cavou mais um pouco enxerguemos a bicha, estava ainda intacta.O delegado tirando a tampa da lata saiu correndo alucinado, seguido pelo seu guaxeba tampinha.E eu que já tinha tido alguns pressentimentos, também corri, quase não acertando o caminho de volta.No lugar do ouro, dentro da lata, estava a cabeça da loira que pedia justiça ao delegado, mas ela deu uma gargalhada tão feia, mas tão nojenta que assustou inté os bichos da mata.

Ela deu a gargalhada e ainda me chamou de irresponsável, o que me deu uma raiva, mas no momento prevaleceu o medo e eu só não me borrei todo seu moço, porque sou homem duro na queda. Quanto ao delegado e seu bate pau, nunca mais ele foi visto pelas bandas do Cuiu-Cuiu.  E quanto ao nosso herói, que sonhava em bamburrar nos garimpos do Tapajós, vive de varação em varação, perguntando se alguém viu sua amada Mariana e seu três filhin..Dizem alguns antigos conhecidos de Suetônio, que ele ficou bilé mesmo, vive falando coisa com coisa, inclusive que vai trabaiá de novo no barranco, arranjar três kilo de ouro pra colocar dentadura nova na muié, e jurou que os dentes vai ser tudo de ouro...E si pudé comprá pra ela um castelo pra viver eternamente adorando sua princesa abandonada em Itaituba.

Nazareno Santos-Escritor-Jornalista