terça-feira, 7 de março de 2017

Só vacinação previne a febre amarela


Pedro Fernandes- Pesquisador-  Foto Daniel Costa

O Brasil inteiro acompanha, assustado, as notícias de aumento dos casos de febre amarela - doença que não chegava a registrar mais que 10 casos ao ano até bem pouco tempo atrás -, principalmente no Sudeste do país. Não demorou para que os alertas se acendessem no Pará, especialmente nas últimas semanas, quando a morte de macacos no interior do Estado e até em Belém aumentou as suspeitas de que novos casos estivessem próximos de aparecer aqui também (ver box). 

O médico virologista, pesquisador e diretor do Instituto Evandro Chagas (IEC), Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, 59 anos, fala sobre as possibilidades da doença aumentar no Estado e diz não acreditar em epidemias por aqui, apesar de destacar a importância da imunização para combater a doença.

- O senhor pode explicar o porquê desses números alarmantes de uma doença sob controle há tantos anos?
R: A febre amarela é enzoótica, ou seja, uma doença que não pode ser erradicada. Mas ela pode ser prevenida, porque há uma vacina - que este ano completa 80 anos de sua disponibilidade, diga-se de passagem. A ocorrência de casos no País é e sempre foi limitada, é pontual e aparece onde classificamos como áreas em que a vacinação é recomendada. São as regiões Norte, região Centro-Oeste, o Estado do Maranhão, o Estado de Minas Gerais e a parte oeste dos Estados do Piauí, Bahia, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. 

- Então, o que houve no Estado de Minas Gerais?
R: O que estamos vivendo agora é uma epizootia [Estado da doença que apenas ocasionalmente se encontra em uma comunidade animal, mas que se dissemina com grande rapidez e apresenta grande número de casos] entre os macacos. Isso não é algo que pode ser evitado, já que não há vacinas para esses animais. Porém, casos humanos a gente pode evitar, desde que a população seja vacinada onde há a recomendação. E não houve uma vigilância bem feita sobre o status de vacinação da população, em especial, no Estado de Minas Gerais, com mais de 90% dos casos confirmados. Quando os casos começaram a aparecer, se foi buscar informações sobre a cobertura vacinal em MG. Era só de 53%! Muito baixa. Para se ter uma ideia, onde há a recomendação para a vacinação, o ideal é que a cobertura fique entre 90% e 95% da população. Isso é um problema. 

- E essa epizootia, tem uma razão de ser?
R: Periodicamente, elas ocorrem. A última que tivemos, e que não foi tão significativa quanto essa que estamos vivendo agora, foi em 2008, ou seja, há 9 anos. Sempre se espera que, entre 5 ou 10 anos, ocorram essas epizootias, que é o período necessário para os macacos renovarem sua população. Junto a isso, temos o aumento da população de mosquito, que é o transmissor da doença. O aumento da temperatura e das chuvas, favorecem a proliferação dos mosquitos, ou seja, há uma série de condições favoráveis e que andam juntas para chegar onde chegou em Minas. Nos outros Estados, o que houve foi um “respingo” de Minas, graças à epizootia. 
- E esse “respingo” pode chegar mais longe?
R: Sim, talvez chegue ao sul da Bahia, onde há houve caso de morte de macacos, e no norte do Rio de Janeiro, pela questão da proximidade. Mas a cobertura vacinal lá também era baixa e foi intensificada após as confirmações nos Estados de Minas Gerais e no Espírito Santo. 
- Como deve ser trabalhada essa vacinação?
R: Vejo a necessidade de introdução da vacina no calendário de vacinação das crianças, no Programa Nacional de Imunizações (PNI) infantil. Eu defendo isso há muitos anos, e essa discussão será feita em março agora, junto ao Comitê Técnico Assessor de Imunizações (CTAI) do Ministério da Saúde, que talvez resulte na adoção da vacinação em todo o território nacional, para crianças. Com isso, ao longo de décadas, cria-se um corte de pessoas vacinadas, protegidas contra a doença, até que todos os Estados sejam cobertos. 
- Qualquer pessoa pode se vacinar, mesmo fora do período de campanhas?
R: Nas campanhas, todo mundo quer se vacinar. Acontece que não é para todo mundo, estamos falando de uma imunização que pode trazer reações adversas. Nós publicamos, em 2001, sobre os primeiros casos do tipo, e teve quem adoecesse e até morresse após a administração da vacina, porque tomaram em momentos de campanha e não foram respeitadas as contraindicações.
- E quais são elas?
R: Mulheres grávidas não podem ser vacinadas; pessoas em uso de antineoplásicos e corticosteroides (imunossupressores); pessoas diagnosticadas com Aids, mas não com HIV positivo; pessoas com doenças autoimunes, como lúpus; pessoas com diabetes e/ou hipertensão severas; e crianças abaixo de 6 meses de vida. Essas são as contraindicações formais. No caso do adulto com mais de 60 anos, e livre dessas condições que eu já citei, é preciso avaliar se os benefícios da vacina valem o risco, se a pessoa vai se expor à mata, a uma área de transmissão, por exemplo.
- Na última, foi noticiado que houve morte de macacos em Rurópolis e Belém. Há motivos para receio?
R: No Pará, como em toda área com recomendação de vacinação, são esperados episódios periódicos de febre amarela, em humanos inclusive, mas restritos. E aí estamos falando de pessoas que não se vacinam porque não querem, por uma série de motivos. É importante lembrar que duas doses em um intervalo de 10 anos são suficientes. Aqui a cobertura vacinal é bem maior, embora não esteja ainda dentro do esperado. De acordo com informações da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), 80%, em média, são vacinadas contra a doença.

PARA ENTENDER
FEBRE AMARELA NO PARÁ

- No dia 21 de fevereiro, o Evandro Chagas confirmou que a morte de um macaco encontrado morto na zona rural do município de Rurópolis, no oeste do Pará, foi causada pela febre amarela. Já no dia 24, o instituto confirmou que um primata também morreu por causa da doença no bairro do Curió-Utinga, em Belém. 

- Por causa das mortes, a Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) anunciou medidas, como a verificação no local para saber se há mais mortes de animais, estabelecer o bloqueio vacinal dos moradores daquela região e buscar de possíveis casos suspeitos de febre amarela, bem como à aplicação do inseticida “fumacê” e a distribuição de mais de 30 mil mosquiteiros com larvicidas em diversas regiões do Estado.

- A Sespa informou que não foram registrados casos de febre amarela em humanos desde 2015 no Pará, quando houve o registro de apenas um caso.
83 mortes já ocorreram em Minas Gerais em decorrência de complicações da febre amarela. Mais 173 mortes estão sendo investigadas, segundo boletim da Secretaria de Saúde do Estado. É o maior surto desde 1980. 
1.027 casos foram notificados em MG. Desses, 234 já foram confirmados. 

(Carolina Menezes/Diário do Pará)


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