segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Nova ortografia agora já é obrigatória Novas regras unificam língua escrita de países que falam português

O que era para ser um acordo de largas proporções, pensado para unificar a língua escrita de países que falam o mesmo idioma, seja no oriente, seja no ocidente do planeta, virou um desacordo geral. Com algumas idas e vindas, ou muito puxa-encolhe, finalmente – pelo menos para o Brasil – o tal acordo passou a valer. Tudo bem que o decreto assinado pela “presidenta” (ei, essa maluqice foi regulamentada pelo acordo?) tenha entrado em vigor num dia em que os brasileiros estavam mais interessados nos shows da virada, nos fogos que anunciam o ano novo e nas homenagens a Yemanjá.

 O acordo que muda a forma de escrever de apenas 0,43 das palavras dicionarizadas (no Brasil) e de 1,42 (em Portugal) e de índices não muito diferentes em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe e Timor Leste deve ter sido a última coisa em que os brasileiros pensaram no 31 de dezembro. Mas é bom que lembrar que, a partir de hoje, quando a vida volta mais ou menos ao normal, as pessoas devem se preocupar com isso, porque acabou o período de transição, quando era possível usar as formas anteriores ao acordo. 

A partir de agora, o que era transitório virou definitivo. O acordo de unificação da língua portuguesa, em sua versão escrita, começou a ser desenhado em 1986, no Rio de Janeiro, quando seis, dos sete países, interessados no assunto, se reuniram. A proposta de eliminação de muitos acentos foi considerada radical. Quatro anos depois, em Lisboa, reabriu-se a agenda e fixou-se o ano de 1994 como marco inaugural das mudanças. 

Como ninguém se incomodou com elas, o governo deu uma pedaladinha e empurrou para 31 de dezembro de 2012 o prazo final para a pacífica coexistência entre as duas formas. Naquela data, ainda não havia acontecido a chamada “acomodação” das formas e, mais uma vez, empurrou-se para 31 de dezembro de 2015 o prazo da validade das duas formas. Agora, senhoras e senhores, não há mais desculpa. 

Pelo menos no Brasil, porque em Portugal a lei da tolerância só vai entrar em vigor no ano que vem. A reforma da ortografia não era o que se poderia chamar de “sangria desatada”, mas precisava acontecer. Os que defendem a necessidade do acordo, dizem que, com uma escrita unificada, poderá haver maior circulação de livros entre os países lusófonos. Traduzindo: o autor escreve, pensando que seu livro poderá ser lido em vários países e fica encorajado a produzir uma tiragem maior. Aí o preço cai mais pessoas lerão e, quem sabe, a medida contribuirá para diminuir o analfabetismo. 

 

Isso, depois, a gente combina com os russos. INTEGRAÇÃO A sétima língua mais falada no mundo não está na lista das oficiais, na ONU, e os documentos escritos em português tinham versão lusitana e portuguesa. Com 800 anos de idade, a língua portuguesa ainda não se encontrou. O acordo vai facilitar um pouco essa integração, mas ninguém deve esperar mudança para além da letra (ainda ignorada) da lei. Vamos combinar: as mudanças aconteceram apenas na escrita. 

Os portugueses escreverão (escreverão?) fato e não facto, mas continuarão a falar facto. Aqui, iremos para a Assembléia Paraense, mas, se precisarmos escrever um bilhete, avisando que estamos lá, escreveremos sem o acento, ok? O Antônio brasileiro terá Antônio e os portugueses rezarão para Santo António. Ninguém haverá de se importar com os gaúchos que dizem “tu foi”, muito menos com os que falam que namoram com, no lugar de namorar a (ou o). 

Regências, pronúncias e assemelhados não são porteira fechada. Ah! O trema morreu de vez, para sorte de 9 entre 10 brasileiros, que não sabiam exatamente para que serviam aqueles dois pontinhos.  O hífen – vulgarmente conhecido como tracinho – é quem está causando problemas, mas com o tempo aprendemos que foi suprimido e que continua sendo usado aqui ou ali.   A Academia Brasileira de Letras colocou a cereja no bolo mal misturado da reforma e, em seu site (www.academia.org.br), oferece um serviço batizado de Volpe – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Lá estão disponíveis 381.000 verbetes, atualizados em sua forma de existir após o 31/12/15. 

É só perguntar, que o oráculo responde. Melhor de tudo: é grátis e as chances de erro praticamente não existem. Em tempo: o alfabeto passou a ter três letrinhas a mais k, w e y (alguém aí escrevia Will, por exemplo, com U ?) e a proposta do professor Ernani Pimentel, de Brasília, que elimina o h inicial (hora passará a ser ora, ora pois); o ch e o ç (chave será xave e aço, asso), ainda não passou a fase de delírio.

 Que Camões, Pessoa e Machado de Assis nos iluminem nesse aprendizado. Mas como eles não foram os donos da língua, apenas luzes no caminho, uma vez que quem manda na língua e isso já ensinava o poeta Manuel Bandeira, é o falante, vamos ver o que acontece. Por enquanto, vale a lei. Ei, mas não roubar também é lei e por aqui isso não foi levado a sério. Valei-nos, Nossa Senhora de Nazaré!, porque o caso não é para brincadeira. 

O Liberal Digital! ________________________________________

Nenhum comentário:

Postar um comentário