domingo, 1 de novembro de 2015

Mês de luta contra o câncer de próstata Novembro Azul chama a atenção para o cuidado com a saúde dos homens ________________________________________

O aposentado Cândido Venício Mergulhão de Oliveira comemora, em novembro, três anos da vitória contra um câncer de próstata, diagnosticado quando ele tinha 68 anos de idade. Este tipo da doença é o segundo que mais mata homens no Pará, perdendo apenas para o de traqueia, brônquios e pulmão. Somente entre janeiro do ano passado e julho de 2015, o Ministério da Saúde registrou 50 óbitos de câncer de próstata entre os 342 casos de internação pela patologia no Pará. 

A prevenção, chave para um diagnóstico precoce que permita um tratamento bem-sucedido ao paciente, é hoje a bandeira do aposentado e do Novembro Azul, uma mobilização nacional para conscientizar os homens sobre este tumor. Cândido contou que sempre fez exames periódicos a pedido do médico, inclusive o PSA (Antígeno Prostático Específico, em português) cuja enzima é utilizada para diagnóstico, monitoração e controle da evolução do carcinoma da próstata. Cerca de seis meses depois de fazer o exame, o idoso o repetiu por prevenção e constatou alterações na taxa de referência. “O médico me pediu uma biopsia. Dez dias depois, o resultado foi positivo: câncer. Além da fé que você tem que ter, a gente tem que aceitar no que vem e ter fé no que vai acontecer depois”, afirmou, ao considerar a doença traiçoeira pela ausência de sintomas, no caso dele. Quase dois meses após o diagnóstico, o aposentado passou por uma cirurgia e, em janeiro do ano seguinte, começou uma maratona de 33 sessões de radioterapia para tratar o tumor, diagnosticado como não agressivo.

 “O diagnóstico precoce ajudou muito, porque não era agressivo até aquele ponto. Eu poderia não estar nem vivo mais. Se o câncer vai para outros órgãos, acaba com tudo logo”, disse. Três anos depois da cirurgia, Cândido leva uma rotina normal, cumprindo exames preventivos no intervalo de seis meses. “Ainda tem muito preconceito de ‘levar o dedo’, como dizem. Tem gente que leva na brincadeira e não faz. Conheço muita gente que já foi embora por causa disso”, lamentou, acrescentando que o machismo não pode ser um obstáculo para a saúde do homem. Maioria adia a procura por tratamento Em Belém, o câncer de próstata é o terceiro tipo da doença que mais acomete homens, perdendo para o de pulmão, por causas associadas ao tabagismo, e de estômago, ligado à alimentação. Dados da Coordenação Municipal de Saúde do Homem, vinculada à Sesma, apontaram que de 2009 até o momento, foi registrada a média de 33 mortes por câncer de próstata ao ano na capital.

 Responsável pelas ações de saúde voltadas aos homens na Sesma, Jaciléia do Socorro da Costa classifica o número como “bem baixo”, considerando que 48% dos 1,5 milhão de habitantes são homens. Responsável pela execução dos serviços de saúde, Jaciléia informou que a secretaria disponibiliza atendimento ao segmento masculino em todas as Unidades Municipais de Saúde (UMSs), mas desenvolve um programa especificamente voltado à saúde do homem na unidade da avenida Tavares Bastos, na Marambaia, das 7 h às 20 horas. O horário estendido em três horas é proposital, para facilitar o acesso à prevenção de forma mais reservada.

 A unidade da Marambaia oferece o teste de PSA e outros exames de sangue, além de orientações e consultas com especialistas. Somente a ultrassonografia não é oferecida no espaço, mas o paciente é encaminhado para uma clínica credenciada pelo município, quando necessário. Apesar disso, ela comentou que a demanda não é grande pela faixa etária trabalhada na unidade, que é de 20 a 59 anos. “É uma demanda em torno de 22% da população. 

São exames necessários a partir de 50 anos, caso não tenha nenhum caso registrado na família. Se tiver histórico, é 45 anos. O câncer leva de 10 a 15 anos para se manifestar, mas com a prevenção a gente consegue fazer um diagnóstico precoce”, enfatizou. Formada em psicologia, Jaciléia observa que o preconceito dos homens em procurar atendimento de saúde diminuiu, mas campanhas internas ainda são fundamentais para estimular esse público a se prevenir.

 A UMS da Marambaia oferece 200 atendimentos gerais por dia, sendo só 30% para pacientes homens. “É aquele homem que não se cuida, não fala da questão. É o super-homem que nunca adoece. A partir do momento que você fala do câncer de próstata, você está mexendo numa fragilidade dele”, concluiu. Subnotificação de casos pode esconder problema maior Carlos Sales Júnior, coordenador estadual de Saúde do Homem da Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa), destaca que os casos registrados pelo Ministério da Saúde - e repassados pela Sespa à reportagem - podem não refletir a realidade do câncer de próstata no Pará.

 Segundo ele, a razão é a subnotificação dos casos, sobretudo em municípios do interior. “Tem muito homem que vai desenvolver a doença e acaba fazendo uma sondagem no interior dele (na cidade onde mora) e fica por isso mesmo. E geralmente é o homem idoso, que não quer procurar mais o serviço de saúde e acaba falecendo”, observou Carlos, reconhecendo a necessidade de coletar melhor esses dados. 

O representante da Sespa diz que o perfil predominante do paciente ao descobrir a doença é acima de 60 anos de idade, cuja mortalidade ocorre frequentemente a partir dos 80. Ele avalia que a busca pelos serviços oferecidos nas unidades básicas de saúde enfrenta barreiras socioculturais, como o machismo, o pensamento masculino de que não vai adoecer e, por conseguinte, a entrada pela urgência - e não pela Atenção Básica, onde o atendimento é preventivo. 

Em decorrência deste cenário, Sales informa que a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem propõe trabalhar o acesso e o colhimento do homem nos postos de saúde, de tal maneira que este se identifique no espaço. Toque - Atualmente, o SUS oferece sorologias para hepatites, diabetes e sífilis, hemograma e, em casos sintomáticos, os pacientes são encaminhados para fazer o PSA e exame de toque retal em clínicas credenciadas pelo município.

 Carlos Sales Júnior, coordenador estadual de Saúde do Homem da Sespa, ressaltou que o rastreamento do paciente não é mais tarefa exclusiva do Ministério da Saúde. “Só vai fazer o toque agora se for sintomático, se tiver dificuldade para urinar, retenção urinária, infecção urinária frequente, um histórico familiar - que seria um fator de risco”, explicou. ________________________________________

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