quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O que quer o “exército de Stédile” provocando os militares?

A última coisa de que necessita a presidente Dilma Rousseff é agregar pólvora à precária estabilidade institucional do seu governo. Por isso, é inexplicável à primeira vista a assinatura do Decreto 8.515,  que delega ao ministro da Defesa uma série de atribuições anteriormente designadas aos comandantes militares, como a transferência, reforma e promoção de oficiais, nomeação de capelães militares e outras medidas. O decreto foi publicado no Diário Oficial da União de 4 de setembro, com a assinatura  da presidente da República e do ministro interino da pasta, almirante Eduardo Bacellar Leal Ferreira, que negou ter tido conhecimento prévio do fato. 

De acordo com a jornalista Tânia Monteiro, em reportagem publicada no jornal O Estado de S. Paulo de 6 de setembro, a Casa Civil da Presidência da República informou que o envio do decreto à presidente atendeu a uma solicitação da secretária-geral do Ministério da Defesa, Eva Maria Cella Dal Chiavon.  Consultado, o ministro Jaques Wagner, que estava fora do País quando o decreto foi enviado à Casa Civil, afirmou ter sido surpreendido pelo fato:  “Posso assegurar que não há nenhum interesse da presidente Dilma tirar poderes naturais e originais dos comandantes. 

Ainda não estudei o decreto, mas ele visa normatizar as prerrogativas de cada instância com a criação do Ministério da Defesa e não tirar o que é da instância dos comandantes (grifos nossos).” Porém, em nota oficial divulgada no dia na seguinte, ele defendeu o decreto, afirmando que “a publicação do decreto 8.515/15 obedece ao processo de consolidação institucional do Ministério da Defesa e não fere o papel constitucional das Forças Armadas”. Aqui não existe ingenuidade.

 A secretária-geral Chiavon é um veterano quadro do Partido dos Trabalhadores (PT), no qual milita desde o início da década de 1980, com a particularidade de ter uma longa militância junto às redes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Seu marido, Francisco Dal Chiavon, é ninguém menos que o número dois do líder do MST, João Pedro Stédile.

 Ambos integram o núcleo duro radical do PT, fomentado pela Teologia da Libertaçâo.  Independentemente de um conhecimento prévio pela presidente, que se disse surpreendida pela repercussão do episódio, o envio do decreto para assinatura teve o propósito manifesto de provocar uma confrontação com a cúpula militar, além de mostrar um total desprezo pela sua própria figura.

 Daí se depreende que esse núcleo duro do radicalismo petista já começa a atuar sob uma perspectiva de que Dilma Rousseff não detém mais as condições de se manter no poder e, consequentemente, a retomada de uma agenda radical passa a ser considerada uma opção para a sobrevivência do PT ou do que sobrar dele. Em março último, já alertávamos sobre essa tendência ao radicalismo: http://msiainforma.org/es/brasil-en-una-encrucijada/ Essa visão errônea foi manifestada, primeiramente, por Lula, em 24 de fevereiro, quando ameaçou convocar o que chamou de “exército de Stédile” – referindo-se a João Pedro Stédile, o jacobino líder do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

 Na ocasião, o ex-presidente fez um discurso em defesa das conquistas sociais dos governos do PT e da própria Petrobras, contra as novas tentativas de privatizá-la. Dias depois, em 5 de março, uma “brigada feminina”  de 500 militantes do MST invadiu e destruiu o laboratório de pesquisas de biotecnologia da empresa Suzano Futura Gene, em Itapetininga, estado de São Paulo, poucos dias antes do Dia Internacional da Mulher, prejudicando pesquisas de melhoramento genético de eucalipto em desenvolvimento há 14 anos.

 Em vez de condenar essa barbárie contra importantes experimentos científicos, o governo não apenas se omitiu, mas a própria presidente da República deu o seu aval implícito à violência, ao “passar em revista” as tropas do “comandante Stédile”, em um evento no acampamento do MST chamado Lanceiros Negros, na região metropolitana de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Ali, Dilma ouviu um discurso iracundo de Stédile, que desqualificou as grandes manifestações de março, taxando-as de “expressão da classe média reacionária”, e prometeu que, nas ruas, “vamos derrotar o seu plano diabólico”.

 Uma semana antes, em 8 de março, em Caracas, Venezuela, Stédile apareceu discursando em uma solenidade oficial com a presença do presidente Nicolás Maduro, que enfrenta uma radicalização política muito mais grave que a brasileira. Essa sequência de eventos alimenta uma ideia falsa, mas perigosa, de uma iminente “bolivarianização” do Brasil, a qual não distingue que o movimento bolivariano venezuelano se originou dentro das Forças Armadas, que dão sustentação ao regime, o que dista muito da situação brasileira, na qual os militares apenas cumprem funções constitucionais, muito distantes de simpatizar com os líderes do PT.

 Em vez disso, essa radicalização absurda constitui uma afronta às instituições nacionais, às próprias Forças Armadas e à população brasileira, que se opõem aos métodos violentos do MST. De fato, pensar que um “exército” protoinsurrecional de jacobinos possa proporcionar sustentação política a um governo com índices cadentes de popularidade constitui uma vã ilusão ou disfuncionalidade mental de certos líderes do PT, dentro e fora do Palácio do Planalto. 

Tal perspectiva de radicalização tem sido objeto de certos “recados” das lideranças militares. Em junho, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, aproveitou o velório do general Leônidas Pires Gonçalves, na sede do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro, para rechaçar a agenda da Comissão Nacional da Verdade, que incluiu Leônidas em uma lista de responsáveis por torturas durante o regime militar de 1964: “Os soldados do seu Exército não consentirão que a retidão do seu caráter e a transcendência de sua alma sejam maculadas por versões históricas capciosas e tentativas de impor verdades de ocasião.

” Em um artigo publicado em vários jornais, em 25 de agosto (Dia do Soldado), Villas Bôas fez questão de ressaltar: “O Exército de Caxias, fiel ao que preceitua o artigo142 da Constituição federal, é o instrumento capacitado, juntamente com a Marinha de Tamandaré e a Força Aérea de Eduardo Gomes, a garantir a normalidade do ambiente propício ao desenvolvimento, no qual a verdadeira democracia, despojada de adjetivos ou condicionantes, e a visão generosa dos homens e das mulheres de bem em torno da prevalência dos interesses nacionais criem o ambiente de oportunidades que induzirá a prosperidade que tanto perseguimos.

 “A ação do Exército foi, é e sempre será orientada para a defesa de nossa soberania e da sociedade a que servimos, pela manutenção da integridade territorial e garantia da estabilidade social, na senda da legitimidade que o respeito à legalidade conquista. “Em breve retorno aos feitos de Caxias, constatamos que o Exército Brasileiro mantém a sua missão constitucional como farol, fiel ao sagrado compromisso com a Pátria, sempre ao lado da sociedade e em perfeita harmonia com os valores que caracterizam desde sempre a instituição.” 

Enviado pelo MSIA

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