sexta-feira, 31 de maio de 2013

Nova invasão de Belo Monte: até quando?

Por Roberto Moreira

Especial para o Blog

Na madrugada da segunda-feira 27 de maio, 170 índios mundurucus, xipaias, caiapós, araras e tupinambás voltaram a invadir e ocupar o canteiro de obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, na região de Altamira (PA), a segunda invasão do mês. Além do canteiro de obras, os invasores ocuparam uma vila residencial dos funcionários e fizeram uma "blitz" na Rodovia Transamazônica, para impedir a passagem de ônibus e caminhões que se dirigiam à obra. 

Com a nova invasão, as obras de Belo Monte já somam 93 dias de paralisações, dos quais 67 se deveram às invasões de indígenas e militantes de ONGs ambientalistas contrárias ao projeto (Agência Brasil, 28/05/2013). Na terça-feira 28, o juiz Sérgio Wolney Guedes, da comarca de Altamira, intimou os invasores a desocupar pacificamente o local em um prazo de 24 horas. A reação dos indígenas demonstrou a auto-suficiência e a arrogância da militância indigenista pelas instituições do governo federal, motivadas pela tolerância e tibieza das autoridades diante da grande influência política e midiática deste aparato intervencionista. Simplesmente, rasgaram a intimação oficial diante do oficial de justiça, acompanhado por representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e cerca de 40 homens da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Militar do Pará, afirmaram que não sairão do local e, em seguida, puseram-se a dançar e a cantar (Movimento Xingu Vivo Para Sempre, 28/05/2013). Até o momento em que escrevemos, o clima no local continuava tenso:

 um jornalista foi ameaçado de prisão pelas forças policiais e uma cinegrafista foi expulsa da área, por estar entrevistando os indígenas sem autorização. A eletricidade da área ocupada pelos índios continua cortada e eles não apenas se recusam a deixar o local, como ameaçam provocar incêndios e depredações nas instalações. O pretexto da invasão é o habitual: os índios afirmam que não foram consultados sobre os projetos implementados nas proximidades das suas terras e, evocando a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Constituição Federal, pretendem nada menos que interromper a construção de Belo Monte e impedir os projetos hidrelétricos previstos para os rios Tapajós e Teles Pires, no Pará e em Mato Grosso.

 No mesmo dia 27, os invasores divulgaram um manifesto, por intermédio do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), no qual afirmam que haviam encerrado a sua invasão anterior ao canteiro de obras, no dia 10, para evitar que o governo federal passasse "muita vergonha nos tirando à força daqui". No documento, os índios alegam que haviam invocado a presença do secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, mas "ele não veio... Então, nós ocupamos mais uma vez o seu canteiro de obras". O CIMI é uma das ONGs que integra a cúpula do aparato indigenista no Brasil, juntamente com o Instituto Socioambiental (ISA) e a própria Funai. Apesar de os invasores afirmarem que contam com o apoio dos trabalhadores da obra para as suas reivindicações, a realidade parece ser outra. 

Com o bloqueio da estrada e dos acessos ao canteiro de obras pelos indígenas, os caminhões que transportam materiais diversos para a obra, vindos, às vezes, de outros estados, não puderam descarregar e estão parados na estrada. O caminhoneiro Eduardo Martins, que transporta cimento vindo de Tocantins, reclamou pelos prejuízos: "Primeiro lugar, vem o prejuízo da família, que nem o contato a gente tem. Segundo lugar, a gente perde com o transporte, porque nós somos freteiros, não somos da empresa... A produção depende do carregamento e descarergamento (G1, 29/05/2013)." Para complicar, o bloqueio impede que os caminhoneiros tenham acesso aos refeitórios e banheiros do canteiro. Um operário da obra, que preferiu não se identificar, disse ao G1 que a paralisação dos trabalhos os priva das horas extras, com as quais contam para complementar os salários. 

"Nós estamos parados, nós estamos perdendo. A gente ganha pouco, com essa paralisação, a gente ganha menos", lamentou. Uma reportagem da agência Folhapress (28/05/2013) afirma que o governo federal já vê os mundurukus como "inimigos", por conta da sucessão de invasões. Após a invasão do início de maio, a Secretaria-Geral da Presidência divulgou uma dura nota, na qual qualifica os militantes mundurukus como desonestos, mentirosos e criminosos. "Na verdade, alguns mundurukus não querem nenhum empreendimento em sua região, porque estão envolvidos com o garimpo ilegal de ouro no Tapajós e afluentes. Um dos principais porta-vozes dos invasores em Belo Monte é proprietário de seis balsas de garimpo ilegal", dizia a nota. Os prejuízos causados pelas recentes ações agressivas do aparato indigenista são enormes, como se pode avaliar pelos mais de dois meses de paralisações da construção de Belo Monte causadas pelas invasões do canteiro de obras.

 E a sucessão de tais ações, cujo planejamento e execução requerem uma sofisticada capacidade de inteligência, logística e propagandística, assemelhando-se a operações paramilitares, sugere que o aparato indigenista se sente suficientemente confiante para desafiar as autoridades nacionais. Por isso, é mais que hora de o governo federal enquadrar este insidioso aparato intervencionista, que tem muito pouco a ver com o bem-estar das comunidades indígenas, e muito mais com uma agenda de interesses ideológicos, políticos e econômicos que contraria todos os interesses da nacionalidade brasileira.

 INÍCIO Mensagens e sugestões, favor enviar para msia@msia.org.br. MSIa INFORMA é uma publicação do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa). Conselho editorial: Angel Palacios, Geraldo Luís Lino, Lorenzo Carrasco (presidente), Marivilia Carrasco e Silvia Palacios. Rua México, 31 - sala 202 - Rio de Janeiro ( RJ) - CEP 20031-144; Telefax: 0xx21-2510-3656 | www.msia.org.br | msia@msia.org.br |

Nenhum comentário:

Postar um comentário